Joel Alves Bezerra*

Resumo

Este trabalho tem por objetivo analisar a participação política do coletivo de capoeiras participantes da roda de rua realizada quinzenalmente, desde meados de 2007, na Praça da Gentilândia, em Fortaleza/Ceará, a partir do assassinato do mestre de capoeira Moa do Katendê em decorrência de divergências políticas no processo eleitoral para a presidência do Brasil no ano de 2018. Nascida como mais um espaço de vadiação[1] possível, a roda da Gentilândia suscitou, e em certa medida ressuscitou, processos indenitários ancestrais de resistência e mobilização até então pouco articulados e vivenciados pelos capoeiras fortalezenses. Os desdobramentos manifestados pela roda em si, e mais especificamente, por meio das intervenções nos espaços públicos, e que culminaram em um Ato de Memória ao Mestre Moa nos convidam a reflexão do papel social, cultural e político da capoeira, outrora perdido em grade parte na contemporaneidade.

Palavras-Chave: Capoeira, Praça da Gentilândia, Roda de Rua.

Objetivos

Compreender o surgimento da roda de rua da Gentilândia como elemento ancestral de manifestação, sua luta na permanência e continuidade das atividades, as relações produzidas deste coletivo com os responsáveis pelos grupos aos quais os capoeiristas se inserem, bem como, a movimentação política simbolizada pelo Ato de Memória ao Mestre Moa no dia 15 de outubro de 2018, oitavo dia de sua morte, realizado em frente ao Centro Cultural Belchior e se deslocando em passeata até a estátua Iracema Guardiã, em defesa da democracia, da cultura de paz, contra a violência política e o discurso de ódio.

Justificativa/Problematização

O surgimento da capoeira, enquanto forma de luta, de resistência corporal ao sistema escravista, tem no final do século XVIII um de seus primeiro registros[2]. Como campo de batalha é na rua que ela se forjou e ganhou notoriedade, até adentar novos palcos “mais nobres” na passagem de manifestação cultural marginal ao de esporte nacional.

Estudar este locus, a roda de rua, é trazer à tona questões do preenchimento de lacunas urbanas e das tensões que elas produzem quando se posicionam enquanto forma de luta política coletiva e local.

Fundamentação Teórica

A partir do olhar de Agier (2011) sobre a ocupação dos espaços urbanos, e de observações junto ao coletivo da praça, percebemos que a capoeira na roda de rua encontra frestas de ocupação além das linhas imaginárias dos espaços urbanos, aos quais estão envolvidas. Ao preencher estas lacunas, marginais e pouco ocupadas, e assim fazer surgir um corpo vivo dentro da cidade, esta movimentação, enquanto jogo de capoeira, revelou a produção de movimentos sociais onde à intolerância, e tudo aquilo que a ela se assemelha, passa a ser combatida, como um prolongamento da roda física simbolizada por meio da luta em forma de trocas corporais de respostas e perguntas.

Portanto o “fazer-cidade”, por meio da capoeira na roda de rua e as trocas sociais resultantes da pluralidade dos sujeitos envolvidos, é antes de tudo um ato político, onde:

O sujeito da política forma-se na palavra partilhada e na relação com os outros não atribuídos à sua identidade. A política emana de uma parte do todo que é mais do que a soma das partes (com as suas próprias ideias feitas), não está ligada à composição e às divisões do corpo social, distinguindo-se, assim, de qualquer política identitária. Por isso, algo se deve passar fora e para além do habitual de modo a que a política ocorra (Agier, 2011, p. 178).

Em Mbembe (2014a.) utilizaremos o conceito teórico da descolonização como processo a ser perseguido por todos que anseiam uma emergência e uma insurreição das formas estruturantes do sistema contemporâneo

Metodologia

Nossa metodologia se fundamentará em pesquisa de campo antropológica onde a roda, sua ritualística, seus cantos, sua instrumentalidade, seus membros em movimentos, os diálogos produzidos e as ações além do espaço físico nos forneçam caminhos para compreender o papel das manifestações urbanas, coletivas e marginalizadas.

Buscaremos através de relatos orais perceber os anseios dos frequentadores da roda de rua e o papel que esta acabou desempenhando como lugar politizado e fomentador de um processo descolonizador e de resistências a ordem contemporânea.

 Considerações Finais

A partir de um fazer circunscritos a determinada temporalidade, e recorte espacial, a roda da Gentilândia emergiu dos anseios de um coletivo amplo de capoeiristas que, em busca de mais um espaço de vadiagem, acabou se revelando como um forte instrumento agregador de sociabilidades, de pertencimentos, de ressonâncias políticas e de múltiplas possibilidades desenvolvidas no ambiente fértil das incertezas da rua.

O Ato em homenagem ao Mestre Moa, e a sua extensão a demais manifestações das culturas negras, populares e marginalizadas pelo Estado, corresponde a um processo natural, fruto da identificação simbólica da morte de mestre Moa pelos capoeiras da roda da Gentilândia, e extensivo aos demais transeuntes da praça.

Neste sentido novos estudos se fazem necessários a fim de entendermos este ambiente fértil e transformador que é a capoeira da Praça da Gentilândia e seus desdobramentos nas lutas diárias urbanas.

Referências Bibliográficas

AGIER, Michel. Antropologia da cidade: lugares, situações, movimentos. São Paulo: Editora Terceiro Nome, 2011.

__________. Do direito à cidade ao fazer-cidade: o antropólogo, a margem e o centro. Mana [online]. vol.21, n.3, pp.483-498, 2015.

BRITO, Celso de. A política cultural da capoeira angola contemporânea: os casos brasileiro e português. Mediações Revista de Ciências Sociais. Londrina. V 21, n° 2, p. 97-122. 2016

__________. A roda do Mundo: fundamentos da Capoeira angola “glocalizada”. Curitiba: Editora Appris, 2017.

CAVALCANTI, Nireu Oliveira. Crônicas Históricas do Rio Colonial. Rio de Janeiro; Civilização Brasileira, 2004.

MBEMBE, Achille. Sair da grande noite: Ensaio Sobre a África Descolonizada. Ramada: Pedago, 2014.

__________. Crítica da razão negra. Lisboa: Antígona, 2014

SILVA, Robson Carlos. Roda de Rua: notas etnográficas a respeito do jogo da capoeira enquanto fenômeno sociocultural urbano. In: Revista Educação em debate. Fortaleza, programa de Pós-graduação em Educação Brasileira – FACED/UFC. V. 1, nº 59, ano 32, semestral. 2010. p. 11-24.

NOTAS:

* Bacharel em Ciências Contábeis (Universidade Estadual do Ceará – UECE), graduando em História (UECE), pós-graduando em História do Brasil (IDJ/FACPED). Membro do NUPHEB (Núcleo de Pesquisa em História Cultural, Sociedade e História da Educação Brasileira – Universidade Estadual do Piauí-UESPI), sob supervisão do Prof. Dr. Robson Carlos da Silva. joel.alvesbezerra@gmail.com

[1] Vadiação é o termo utilizado pelos antigos capoeiras baianos para se reportar ao jogo de capoeira.

[2] Em CAVALCANTI (2004) temos o registro mais antigo, datado de 25/04/1789, vinculando o termo capoeira à forma de luta física; neste caso a prisão do escravo pardo Adão acusado de ser “capoeira”.

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8 comentários em “RODA DA GENTE E MESTRE MOA DE TODOS NÓS: CAPOEIRA E SEU PAPEL DESCOLONIZADOR NO “FAZER CIDADE”, FORTALEZA (2007-2018)

  1. Joel muito bom seu trabalho amigo. Tema atual e de grande relevância pois temos agora como Diretriz Curricular para a Educação Básica e também para a Superior a Cultura e História Afro -brasileira e a Capoeira traduz-se como elemento primordial nesse campo, pois permite não apenas ser trabalhada no ensino de história em si mais em uma inter ou uma transdisciplinaridade com outros matérias, além de estar inserido também no contexto do cotidiano da Fortaleza do século XXI.

    Parabéns meu amigo pela escolha do tema e sucesso.

    Um forte abraço.

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    1. Amigo Rafael, realmente os estudos sobre a História da África, Cultura Afro-brasileira e Indígena são importantíssimos para entendermos as fortes estruturas de poder que hoje recaem sobre toda a nossa história em séculos de opressão e de exclusão social.
      Por meio da capoeira, e do episódio por nós abordado, tais estruturas aparecem de forma bastante latente, mesmo que não tão bem percebidas por grande parte da sociedade.
      Nosso propósito é trazer um pouco deste debate para compreendermos como determinadas manifestações, outrora de cunho eminentemente de resistência, podem também ficarem cegas na contemporaneidade.
      Neste sentido, uma volta as raízes se faz necessário. Só assim, compartilhando desta força primordial de nosso ancestrais e daqueles que com sangue e suor lutaram por um mundo mais justo, mais coletivo, poderemos traçar estratégias duradoras, de inclusão social.

      Obrigado meu amigo e um forte abraço.

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  2. Camarada Joel,
    Inicialmente, gostaria de parabenizá-lo pela mobilização de um olhar tão atencioso dirigido às possibilidades de articulação, na experiência social contemporânea, entre a capoeira, a cidade e a política. De fato, concordo com você, me parece que a Roda da Gentilândia vem, ao longo dos anos, ganhando também visibilidade por seus contornos políticos. Para além do evento por você analisado, é válido perceber como alguns temas são objeto de preocupação e discussão entre alguns e algumas capoeiras dentro daquele contexto e também fora, o que talvez nos permita pensar em ecos da roda, mesmo quando o evento em si termina.
    A trágica morte do Mestre Moa, assassinado, concordando com você, funcionou como uma espécie de catalisador de ações críticas, de mobilização política e, neste momento, produzindo intervenções pensadas por atores da roda, mas que ultrapassaram o seu lugar físico, indo – por exemplo – ocupar outros espaços da cidade, para além da Gentilândia. Isto, particularmente, apresenta-se como um dado muito valioso para pensar como determinadas lutas podem ser gestados em espaços específicos, mas – em seu desenvolvimento – espraiam-se para outros sítios, buscando visibilidade, externalização das críticas, reivindicação de direitos, legitimidades e, no limite, transformações sociais.
    Grato pela partilha deste resumo, pela possibilidade de o ler e iniciar um diálogo. Por fim, a manifestação de uma curiosidade também de pesquisador: gostaria apenas de ouvi-lo mais sobre o uso da “descolonização” em sua análise, fiquei interessado nas possibilidades de acionamento do conceito.
    Grande abraço, camarada.

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    1. Prezado camarada Igor,

      Decerto que a capoeira possui inúmeras possibilidade de articulações, especialmente na contemporaneidade, onde a diversidade de movimentos e sentidos da capoeira pode se fazer presente.

      Neste trabalho, ainda bastante embrionário, procuro perceber as dinâmicas múltiplas proporcionadas pela roda de rua da Praça da Gentilândia e os resultados críticos destes exercícios que ora ou outra culmina naquilo que você bem pontuou: a mobilização política sobre determinado fato exposto nos discursos pós-roda. Exercícios estes que refletem um pensar através da roda, e para além da roda, como ficou bem latente no episódio da morte de Mestre Moa do Katendê.

      Vale ressaltar que estes diálogos entre o universo da roda, enquanto um jogo performático, e o contexto político social no qual os participantes estão inseridos com suas representatividades no campo circular da roda foi em parte perdendo força no tempo presente. A roda, outrora no meu entender uma formação espiral de contração e retração, subindo e descendo em movimentos de diálogos em fluxos contínuos restringiu-se a caminhar por um círculo de raio único, em alguns casos com pouquíssimas variações de comprimento.

      Neste sentido a roda de rua, aqui objeto de nossa análise, possui características que proporcionam releituras de experiências outrora perdidas, onde estes movimentos primordiais se tornam presentes, aqui e acolá, mesmo de modo pontual, mas que dialogando com as tensões do meio urbano proporcionam experiências férteis para estudos do fazer cidade, como bem nos aponta Michel Agier.

      Sobre a descolonização em Mbembe ainda necessito de mais leituras, mas entendo que o tráfico atlântico de homens e mulheres negras produziu estruturas tão fortes de “coisificação” dos corpos negros, e da construção de uma inferioridade destes sujeitos, refletidas nos preconceitos, na pouca participação política, no pertencimento dos espaços e de outras situações, que somente através de um processo contrário a ordem colonial, ou seja descolonizador, envolto na autonomia destes indivíduos, e aí a roda da Gentilândia com este campo “autônomo”, se não todo, mas em grande parte, fomenta um campo fértil no romper das amarras de uns tantos, bem como um descortinar de preconceitos envoltas nos corpos de todos os jogadores.

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  3. Meu amigo Joel muito relevante e pertinente esse olhar para roda de Gentilândia um dos lugares marcantes de Fortaleza, este estudo nos traz reflexões necessárias, a capoeira como resistência e como ferramenta de luta , a morte do mestre Moa soa como uma afronta a nossa cultura e divergências politicas que impera a intolerância , parabéns pela iniciativa , Salve capoeira .

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    1. Amigo Leandro,

      As rodas de rua possuem uma dinâmica bem própria, e sempre foram um meio muito importante de apresentação da nossa arte. Entretanto alguns aspectos relacionados a uma luta política, mais engajada, foram se perdendo neste formato em nossa cidade.

      Nosso trabalho não nega que as demais rodas de rua da cidade possuam este caráter de resistência, até porque o fato em si de serem vistas pelos transeuntes já é um ato de coragem e de afirmação desta nossa cultura, mas a roda da Gentilândia possui características que de certo modo possibilitam com que as vozes de todos os participantes sejam pronunciadas com o mesmo peso e extensão.. Pelo menos senão iguais, os distanciamentos são menores.

      É notório como o ambiente e esta “auto regulação” é presente, e isto também explica, em parte, a ausência dos Mestres de capoeira no espaço.

      Um grande abraço meu amigo.

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  4. Boa tarde, Joel. Atualíssimo o seu trabalho, parabéns! É enriquecedor falar de capoeira, resistência, lutas diárias e mobilizações nos espaços da cidade, me levando a questionar para quem de fato destina-se os usos desses espaços, já que por vezes as mobilizações, reivindicações e práticas de outras ordens, como por exemplo, a capoeira ou o reggae, são vistos como culturas marginais, práticas que ferem a ordem vigente, e você com sua pesquisa me lembrou de maneira muito bem vinda que é necessário a tomada e ocupação desses espaços e que as variadas culturas tem sua importância e espaço. Quanto ao Mestre Moa, temos muito a lamentar por essa perda e a gritar que já não podemos mais nos calar frente a tanta opressão e desrespeito, tanto em relação ao povo negro, como ao povo indígena, como a mulher, como aos grupos LGBT. Além do mais você como tal temática me despertou interesse por me aproximar de tais grupos, não somente por interesses de pesquisa, mas por compreender a importância de ouvir outras vozes, outros discursos, que não aqueles do “colonizador”, do branco, que tanto invisibiliza os demais, como criminaliza suas práticas. Boa sorte!

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    1. Boa noite Ana Clara,

      Realmente falar de capoeira é sobretudo falar de tudo isto que você listou: resistência, lutas diárias e mobilizações nos espaços da cidade.

      Os espaços públicos são importantes em vários aspectos da sociabilidade urbana. Lugares de passeio, de contemplações, de encontros, desencontros, enfim, de compartilhamento do que somos e daquilo que representamos.

      A marginalização imposta a determinadas formas de pensar, de ser, que fogem ao padrão colonizador, base da nossa formação social, ainda é uma corrente de fortes laços, por isso a ocupação destes espaços é de extrema importância como forma de visibilidade, de pertença.

      Acredito que a luta contra esta marginalização é de fato algo descolonizador, e que temos de trabalhar com todas as formas possíveis de articulações para que possamos construir uma sociedade não igual, mas igualitária nos direitos e deveres de seus cidadãos.

      A roda da Gentilândia nos apresenta a diversidade destes mundos marginalizados: o negro, o indígena, a mulher, os brincantes de rua, grupos LGBT e tudo aquilo que temos o direto de ser. A roda da voz e vez a quem nela se dispõem a jogar.

      Neste mundo, da roda, somos diferentementes iguais.

      Um grande abraço.

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